Nós precisamos falar sobre a Lais (de novo).

Achei, realmente achei que já tinha exposto aqui tudo que havia pra falar sobre a Laís Souza. Desde então pipocaram algumas notícias na mídia sobre ela, como a notícia que foi aprovado no senado sua pensão vitalíciaQuero aproveitar o momento, aqui nesse primeiro parágrafo, antes de tudo mesmo, pra pedir que por favor vocês não confundam e digam que eu tenho inveja dela. Eu tive tratamento, consigo todo mês meu equipamento necessário (como material de sondagem) e vivo com conforto.

Não é isso, mesmo. Mas continuo sim a achar que é desproporcional uns terem tanto, e outros nada. Ela tem sua pensão, justa, por ser uma atleta e estar representando o país, quando o inevitável ocorreu. Ela merece. Todos nós merecemos, para ter uma mínima condição de vida, com dignidade.

No dia 07 de dezembro a Folha de São Paulo fez uma reportagem que trata de uma pesquisa encomendada pela Secretaria Estadual dos Direitos da Pessoa com Deficiência de São Paulo sobre o custo da igualdade de oportunidades para uma pessoa com deficiência. Basicamente, um estudo pra estipular o quanto nós gastamos pra ter qualidade de vida.

Esse estudo levou em consideração os vários tipos de deficiência e até coisas mais caras, como a compra de um carro.

Segundo o estudo, uma criança ou jovem cego 1.140 reais por mês. Na mesma faixa, um criança ou jovem com limitações físicas moderadas gasta 1.344 reais; e, uma criança ou jovem com limitações físicas severas gasta 6.340 por mês. É muito dinheiro.

Para conseguir bancar todos os custos, muitos de nós trabalham em um emprego regular e outro emprego como “bico“. Há um beneficio, geralmente no valor de um salário mínimo, o BPC (Benefício de Prestação Continuada) “que assegura a transferência mensal de 1 (um) salário mínimo ao idoso, com 65 (sessenta e cinco) anos ou mais, e à pessoa com deficiência, de qualquer idade, com impedimentos de longo prazo, de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, os quais, em interação com diversas barreiras, podem obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas.

O problema deste benefício é que ele é pago apenas para quem não está no mercado formal de trabalho, com carteira assinada. Quem trabalha, por exemplo, em alguma empresa, não tem nenhum tipo de auxílio do governo, e muitas vezes apenas com o salário não é possível pagar fisioterapia, uma troca de cadeira de rodas, e tantos outros gastos que podem surgir.

10418385_769062879810288_4471286404231197898_nA deputada Mara Gabrilli, para igualar esta realidade, dentro da Lei Brasileira de Inclusão (LBI) está lutando pela criação do Auxílio Inclusão, pago à pessoa com deficiência que está ou que entrar no mercado formal. Por menor que seja benefício, qualquer ajuda é muito importante, e a aprovação da LBI trará outros inúmeros benefícios para os 45 milhões de deficientes do país.

Tá, mas e a Laís? Vou voltar pra ela agora. No último sábado ela participou do programa Caldeirão do Hulk da Rede Globo, e desde então surgiu uma avalanche de posts sobre ela, desde comemorando sua volta ao Brasil (ela voltou pro Brasil depois de 11 meses afastada, desde o acidente em janeiro pré Olimpíadas de Inverno de Sochi), desde criticando o apresentador Luciano Hulk por perguntar a ela se ela não sentiu dor na hora de fazer suas tatuagens. Vou colocar o vídeo aqui pra contextualizar quem ainda não viu:

Eu não vi o programa. Mas mesmo vendo só este pedaço, sério gente, vocês vão xingar ele pra sempre só por que ele não sabia que ela não tinha sensibilidade nenhuma na parte do corpo que ela fez as tatuagens? Lembrando que cada lesão é uma lesão e que ela podia sim ter a sensibilidade, tá? Não custa nunca perguntar, com educação, como o apresentador fez. Parem de ser boçais e ver maldade em tudo.

Ninguém viu todo o programa, pra ver o Hulk levando os amigos e pessoas queridas dela para recepcioná-la (ela estava fora do país desde o acidente), ou ele conduzindo a entrevista com o maior cuidado? Claro que não. Ele deve ser apedrejado por que fez UMA pergunta errada.

O problema real, como disse o amigo Jairo Marques em um pequeno desabafo no Facebook, é a forma como está sendo ventilado a recuperação dela nas redes sociais, como se ela fosse voltar a andar até as Olimpíadas de 2016 e Miami fosse um lugar de milagres, e qualquer pessoa que vá lá terá suas graças alcançadas. Calma. Ela sofreu o acidente em janeiro. Qualquer lesado medular em um ano de lesão sofre alterações dentro de seu próprio diagnóstico. O que não dá é pra se manter essa exploração midiática suja, querendo canonizar a menina e transformá-la em Santa Laís, Padroeira das Causas Aleijadas.

Ela fez um tratamento inovador em Miami com células troncos e voltou a ter sensibilidade nos pés, quadro que sua lesão medular não possibilitaria sem este tratamento. Sorte a dela. Ela está bem. Ela vai ficar bem. Tem um gente especializada cuidando dela e pessoas que a amam muito e querem apenas o bem dela, cuidando dela.

Ao invés de utilizar as mídias para ficar ventilando aspirações de que ela volte a andar, que os EUA é um centro de milagres, vamos voltar as nossas atenções para coisas mais urgentes como a aprovação da Lei Brasileira de Inclusão, que entra em pauta de votação no Congresso Nacional amanhã. Vamos voltar nossas atenções para passar boas energias para a Lais, em sua recuperação, ajudando que ela continue avançando, todos com os pés no chão.

Menos mimimi e mais atenção, não pelo bem estar de um, mas pela coletividade. Seria bom, pra começar. E vamos deixar a Lais em paz.

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