Finalmente, habilitada.

Alou alou tchutcholinos do meu Brasil.

Todo mundo sabe que para deficientes (seja a deficiência física, intelectual, visual, auditiva ou múltipla), o transporte publico é uma opção totalmente precária, e dependendo da região onde este mora, chega a ser impossível, certo? Todo familiar de um deficiente tem uma história de um cadeirante esperando o ônibus no ponto, debaixo de chuva, sem nenhum deles pararem, ou a história de um cego que desceu no ponto errado porque ninguém avisou para ele que seu ponto passou.

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Dirigindo pela cidade

Por isso, o governo concedeu o direito à Carteira Nacional de Habilitação Especial para os portadores de deficiência, desde que esta deficiência não interfira em sua capacidade de direção. São estas:

  1. Paraplegia: paralisia de ambos os membros inferiores e, geralmente, da região dorsal inferior.
  2. Paraparesia: paralisia incompleta de nervo ou músculo dos membros inferiores que não perderam inteiramente a sensibilidade e o movimento.
  3. Monoplegia: paralisia de um só membro ou grupo muscular.
  4. Monoparesia: paralisia incompleta de nervo ou músculo de um só membro que não perdeu inteiramente a sensibilidade e o movimento.
  5. Triplegia: paralisia de três membros.
  6. Tetraparesia: paralisia parcial dos quatro membros, pois há um pouco de força em alguns deles.
  7. Triparesia: paralisia incompleta de nervo ou músculo de três membros que não perderam inteiramente a sensibilidade e o movimento.
  8. Hemiplegia: paralisia de uma parte do corpo; exceto as deformidades estéticas e as que não produzam dificuldades para o desempenho da função.
  9. Hemiparesia: paralisia incompleta de nervo ou músculo de um dos lados do corpo que não perdeu inteiramente a sensibilidade e o movimento.
  10. Amputação, ou ausência de membro.
  11. Paralisia Cerebral.
  12. Membros com deformidade congênita adquirida.

Alem dessas, algumas doenças também possibilitam ao portador o direito à carta especial (câncer de mama, artrite reumatóide, artrose, acidente vascular encefálico (AVE), esclerose múltipla, mastectomia, quadrantectomia, próteses internas e externas, doenças degenerativas, doenças neurológicas, linfomas, neuropatias diabéticas, escoliose acentuada e encurtamento de membros por má formação).

A orientação que posso dar pra quem tem duvida em saber se se encaixa ou não nas especificações para ter direito à CNH especial é: procure um médico credenciado, e ele saberá exatamente. Isso evita que você perca tempo fazendo todo o processo de aulas para ser barrado no dia da prova prática, pelos médicos do DETRAN.

Há muita procura (e muita tentativa) justamente porque para quem comprovar a necessidade da carta e veiculo especial, o DETRAN emite um laudo pericial que possibilita a entrada na Receita Federal para os descontos de IPI e IOF, na Receita Estadual para os descontos de IPVA e ICMS, e o Cartão de Estacionamento para Pessoa com Deficiência (Cartão DeFis-DSV), retirado pela Prefeitura.

Há também o caso em que a pessoa já era habilitada e foi acometida por uma deficiência, ou doença que causou uma incapacidade total ou parcial, se enquadrando no rol de pessoas com direito à carta especial. Para estes, é preciso um exame médico para atestar a condição e o exame pratico para averiguar se o condutor está apto. Como no caso de uma primeira habilitação, é recomendável procurar uma auto escola especializada, para fazer todo este procedimento.

Quem não pode conduzir (deficientes visuais, deficiência mental severa ou qualquer outra deficiência que impossibilite a condução do veiculo automotor) são classificados como não-condutores e estes têm os mesmos benefícios dos condutores, não precisando que estes tenham carta já que será uma outra pessoa o motorista do veiculo.

Para retirar a CNH Especial, os requisitos são os mesmos da Comum: ter 18 completos, ser alfabetizado, apresentar na auto escola copia do RG e do CPF, comprovante de endereço e foto 3×4 com fundo branco.

Em fevereiro, dei entrada (FINALMENTE) no meu processo de retirada da carta. Pra isso, procurei a Javarotti, uma auto escola especializada em carta especial, que já tinha conhecido no curso de Lesão Medular feito na AACD. Fiz na Unidade da Vila Mariana, que fica na rua ao lado do metrô, fácil acesso.

O atendimento foi excelente, não tenho o que reclamar. Sempre que havia algum procedimento a ser feito fora da auto escola (exame médico e biometria no DETRAN, por exemplo) um carro deles me levava (ou no caso da biometria, um funcionário me acompanhou de metrô até o DETRAN, por opção minha, já que era mais pratico e o horário ficava melhor pra mim).

Fiz a matricula no dia 15 de fevereiro, e na semana seguinte já fui fazer a biometria no DETRAN e o exame médico e psicotécnico para poder iniciar o curso de formação de condutores (CFC). Eu fiz o CFC no Centro de Formação de Condutores Unitran, próximo a estação Santa Cruz do metrô que fora a vantagem de ser perto do metrô mesmo, tinha aula de sábado e domingo (sim, eu fiz aula de final de semana, das oito da manhã até o meio dia, até acabar o tormento #morta).

Basicamente eu tinha um problema só: tempo. Eu trabalho de segunda à sexta, das 9:00 às 15:00, sábados quinzenais das 08:00 às 14:00, e minhas aulas da faculdade começam às 18:00. Logo eu só podia fazer o CFC um sábado sim/um sábado não, e de domingo, obedecendo o calendário das aulas que precisava cumprir e as aulas de direção encaixei de semana à tarde, nesse horário vago das 15:00 às 18:00. Muitas vezes só consegui fazer uma aula (as aulas tinha 50 minutos de duração), o que dificultava muito o treino (levando o tempo que perdíamos no transito).

Da primeira aula do CFC até a ultima aula de condução na auto escola, foram 4 meses (um tempo absurdo).

As aulas de direção, logicamente, foram a parte mais esperada e mais legal. Já na primeira aula eu voltei para a auto escola dirigindo, e aprendi bem rápido a dirigir (inclusive a fazer a famigerada baliza) com muito garbo e elegância, tanto que nas ultimas aulas não tinha mais nada a aprender e os instrutores me levavam para pegar transito, em horário de pico (circuito pela auto escola, Av. Dr. Ricardo Jafet, Av. Ibirapuera, Rubem Berta, Av. Jabaquara, auto escola de volta, incluindo alguns passeios esporádicos pelo Ipiranga).

Fiz as ultimas aulas noturnas em agosto, e minha prova pratica foi marcada pro dia 30 de setembro. Pelo tempo “parada”, optei por contratar separado na auto escola uma aula a mais, pra treinar baliza e ver se eu lembrava ainda pra que lado eu tinha que virar o volante nas curvas.

Dia da prova pratica, nervosismo e tremedeira nas pernas, logicamente. Tinha que estar na auto escola ao meio dia e às 11:00 eu já estava quicando de um lado pro outro. O único lugar em que é feito a prova da banca especial é no DETRAN que fica atrás do Shopping Aricanduva (de terça e quinta, das 14:00 às 18:00).

Chegando lá, assinei a lista de presença no balcão, e os meninos da auto escola me levaram onde era feito o exame medico final, para verificar se eu tinha direito mesmo ou não a CNH Especial (essa banca é feita pelos médicos habilitados do próprio DETRAN, diferente do exame medico realizado no inicio do processo, por um medico credenciado, afim de evitar fraudes). Quase uma hora de espera para ser atendida, cada vez mais pessoas saindo da sala nervosas, com seu pedido negado pelos médicos. Lógico que comecei a ficar nervosa, achando que eles iam me falar que sou aleijada não, era tudo mentira minha, e que era pra eu levantar e sair andando.

Lógico que tudo deu certo (provei minha aleijadisse e falta de vergonha na cara) e fui fazer a prova pratica.

Entrei no carro. Um dos instrutores que estava segurando minha cadeira de rodas abaixou e me ajudou a posicionar o banco. Pus o cinto de segurança. Arrumei os espelhos. Tremia e tremia e tremia. A fiscal do DETRAN disse que quando eu quisesse, poderia dar partida. Liguei o carro (tremendo) e dei a seta para sair, e um leve toque no acelerador. O carro deu um leve e quase imperceptível tremor anormal. O freio de mão ainda estava puxado. Quase convulsionando agora, abaixei e sai com o carro. Parei onde era a parada obrigatória, esperei 10 segundos, olhando se não tinha nenhum carro vindo, seta de novo e virei. Percurso, parando sempre que tinha algum pedestre ou carro pedindo passagem, fiz a rotatória e chegamos no local das balizas. Ela (instrutora) disse que eu podia escolher, e eu pensei vou fazer na ultima porque dá tempo de alinhar o carro direitinho. Carro em posição, seta, vira pra lá e pra cá, baliza perfeita. Dá a seta e sai com o carro. Estaciona ali.

– “Nossa moça, se você estava nervosa nem pareceu”.

– “Sério?”

– “´Sério.”

– “Isso significa que tô aprovada?!”

– “Sim”.

*Meus gritos que provavelmente foram escutados por todos num raio de 2 km*

Fui pra faculdade naquele dia cantando mais feliz do que o sábia laranjeira. Me deram o prazo de dez dias uteis para retirar minha carta na auto escola, e qual foi minha surpresa me ligarem no dia 9 pra ir buscar. Já estou em posse dela, e agora é só não tomar nenhuma multa para não perder a permissão.

Minha carta, como toda carta especial, vem com as restrições baseadas nas minhas limitações, por meio de letras no campo de desenho da CNH. Tenho uma letra F (obrigatório o uso de veiculo com direção hidráulica), G (obrigatório o uso de veiculo com transmissão automática) e H (obrigatório o uso de acelerador e freio manual). Se eu for parada por fiscalização (seja Policia Militar ou marronzinho) dirigindo um carro sem estas especificações, eu me lasco inteira (até porque não acho que conseguiria dirigir um carro sem essas especificações, já quem nem sei trocar uma marcha).

Minha dica é realmente procurar uma auto escola que seja especializada e de fácil acesso, pois eles estarão preparados para suas necessidades individuais (e não vão te levar, por exemplo, pra fazer o exame médico em uma clinica que tenha três lances de escadas). O processo pode ser longo, como no meu caso, ou rápido, isso vai da sua disponibilidade. Mas independente da demora, a sensação de independência que a direção traz, e ter a CNH nas mãos, paga qualquer tempo e estresse.

O próximo texto a respeito será da novela das isenções, para a compra do carro. Quero todos fazendo uma corrente de sentimentos positivos já que a única coisa que poderei fazer aguardando a boa vontade da Receita Federal é esperar sentada. A espera vai de três a cinco meses pra papelada das isenções do carro ficarem prontas.

Até lá, vocês podem andar tranquilos pela cidade.

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