O milagre na Copa das Copas: cadeirante em pé pode, Arnaldo?

Falando efetivamente da COPA DAS COPAS (desculpem-me leitores), ao menos na Arena Corinthians que foi onde fui ver o jogo de abertura, foi tudo muito bem organizado, os lugares eram marcados para nós pelos ingressos e haviam fiscais para ver se estávamos estacionados com nossos possantes em nossas respectivas vagas. Não vi nenhuma cena de cadeirante em pé num lance de maior emoção, como no caso da foto dos torcedores da Croácia flagrados em pé colados na grade de proteção do campo, até porque acho que no Itaquerão nem dava pra chegar lá de cadeira de rodas – ao menos não facilmente.  

Muitos amigos, inflamados pelas fotos de cadeirantes em pé nos estádios, vieram me perguntar se pode, como pode, como fazer e porque eu não fiz também. Eu poderia usar tranquilamente uma camiseta escrito “100% aleijada“, porque meu grau de lesão me impossibilita completamente de andar/levantar, seja na igreja orando ou em um estádio de futebol. Mas essa não é a realidade de todo mundo, é a minha realidade.

Vamos explicar, porque não sei se os senhores sabem direitinho, como funciona uma Lesão Medular (LM): o grau de deficiência de uma pessoa é “calculado” à partir do ponto em que sua coluna é lesionada. A coluna é dividida em cervical (sete vertebras localizadas no pescoço, quem quebra aqui perde os movimentos respiratórios, nas lesões mais altas, perdendo até os movimentos dos braços ou mãos, como o movimento de pinça dos dedos), torácica (doze vértebras, vai do começo das costas até a curvinha do bumbum quase, quem quebra aqui perde o movimento da cintura pra baixo), lombar (cinco vértebras, quem quebra aqui sofre perda de sensibilidade ou/e movimento de determinadas áreas/partes). Há ainda a coluna sacral (cinco vértebras) e cóccix (quatro vértebras), mas não são mais parte da coluna espinhal. Quem quebra aqui, causa lesões nos nervos da área, desenvolvendo a Síndrome da Cauda Equina.

Há também as variantes da lesão na medula. Se você seccionou sua medula numa fratura total, você nunca mais vai voltar a andar/levantar/dançar o Tchan! porque você literalmente partiu sua coluna ao meio (meu caso) ou esfarelou ela. Mas temos também os casos de lesões incompletas, as também chamadas lesões parciais, em que há compressão da medula, e depois de algum muito  tempo você pode voltar a andar normalmente, ou recuperar de forma parcial os movimentos/sensibilidade, sempre com risco de sequelas (o que é bem provável). 

Tudo isso tem que ser levado em consideração.

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Fora uma lesão medular, há outras causas que pedem o uso de uma cadeira de rodas, como muito bem observado pelo Jairo Marques no seu post sobre o assunto no Assim Como Você. Há  as pessoas que estão com o pé/joelho/perna quebrado/torcido e precisam da cadeira, pessoas que usam órteses de sustentação pra ficar em pé e precisam levantar de tempo em tempo, e quem é deficiente sim mas pode ficar em pé com ajuda de um apoio ou não tem marcha, como a Dani Nobile, que inclusive também falou do assunto em seu blog.

Tudo isso pra dizer, que cada lesão é uma lesão. O que não pode é assistir na novela o cadeirante que volta a andar como andava desde que nasceu no incrível prazo de 06 meses de reabilitação e achar que isso vale pra todo mundo, ou também achar que toda lesão é igual

Claro que há a possibilidade de fraude no cadastro, retirada de ingressos e entrada dos estádios. Não sou louca de achar que não, botar minha mão no fogo pelos outros. Ainda mais que a Copa está bem servindo pra divulgar pro mundo inteiro como funciona nosso famoso jeitinho brasileiro. Dói saber que muitos amigos cadeirantes ou com outro tipo de deficiência tentaram comprar ingressos pra abertura ou pra outros jogos, e não conseguiram, na possibilidade desses ingressos terem ido pra pessoas que não precisavam e não podiam ter comprado.

A própria FIFA, por meio de seu diretor de marketing, Thierry Weil, disse que vão ser verificado os casos e que se forem flagrados os casos milagrosos o torcedor e seu acompanhante serão retirados do estádio (noticia via Globo Esporte).

O que não dá de verdade, minha gente boa, é ver foto no Facebook e resolver queimar tudo na fogueira, sem verificar a procedência da história, quem tá na foto e porque estava em pé. Aquele velho conhecimento popular de que nem tudo que parece, é. Caso seja um aproveitador, se valendo de uma falsa deficiência, é claro que deve ser culpado. Mas não podemos condenar, sem todos os fatos.

Se nenhum desses argumentos funcionar pra convencer você, querido leitor, que as coisas não são bem assim… Bem, lembre-se que no Facebook há muito Photoshop.

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