Uma carta, com afeto, para Miriam.

Eu deveria estar estudando (provas bimestrais semana que vem), eu deveria estar descansando (por que sou uma inválida, ha-ha), mais eu estou aqui blogando, mesmo não ganhando um real pra isso (mas caso algum professor acabe lendo este texto e queira me dar nota…).

Abri meu e-mail (agora mesmo) e vi que havia um novo comentário no ultimo texto que postei aqui no blog, o “A teledramaturgia confirma minha teoria e medos mais terríveis” (e sem ser chata ou ficar pedindo reviews, mas que para entender o que se passa aqui nesse texto, é preciso ler ele e mais esse). Os dois tratam de uma critica às novelas, e as formas em que elas sempre colocam o deficiente como um coitadinho, que não se entrega à infelicidade de sua má sorte, e ou milagrosamente se cura/melhora num grau impossível de ser verdade, ou olha que maravilha: ela se torna um exemplo de superação, porque mesmo na cadeira de rodas ela continua levando uma vida normal.

Até aqui, sinceramente, não acho que tenha escrito qualquer merda. Só eu sei toda vez que vejo manchete falando da moça-menina-vilã-e-agora-futura-já-aleijada da novela das nove da Globo.

Até que, voltando ao ponto do comentário do ultimo texto, vi o comentário da Miriam, que vou compilar aqui:

Gente, ficar deficiente não é bênção, é castigo pois faz sofrer, é isso que o autor quer mostrar na trama.Nunca vi alguém ficar feliz por descobrir que não poderá mais andar.

Aqui, peço liberdade à você leitor, para me dirigir diretamente à Miriam. Já me pronunciei sobre o que você me escreveu como resposta ao seu comentário diretamente nos comentários do outro texto, mas acho que isso não basta. Torcendo para que você esteja lendo isso agora, vou me estender um pouco mais, e não fique constrangida em me responder novamente, pois acho que toda forma de diálogo é válida.

Deficiência física não é benção, não é dadiva divina e nem presente dos céus. Não precisa ser eu, sua mãe ou a sua professora do primário a te contar essa novidade. Só quem é deficiente, tem alguém próximo que tem alguma deficiência ou já passou por alguma limitação real sabe o quão difícil isso é. Militar, como eu faço, por superação e para que as pessoas entendam que deficiência física não é doença não é fazer uma celebração à deficiência em si. É, no objetivo mais puro possível mostrar que há felicidade em todos os lugares, de todas as formas, basta estar disposto a ser feliz.

Desculpe, mas não é castigo. Castigo seria, por exemplo, se eu tivesse morrido há oito anos atrás, aos doze anos. Eu teria morrido em paz, pois minha infância foi ótima. Mas nesses oito anos de uma nova vida que eu ganhei… Nossa. São tantas coisas maravilhosas que me aconteceram. Não teria passado por metade delas sem que todo acidente estivesse em meu caminho. Fora todas as pessoas maravilhosas que conheci e ainda vou conhecer. Castigo seria não ter uma chance de recomeçar, mesmo com todas as minhas limitações.

Mas isso não significa que seja uma benção. Não posso dizer que algo que me limita de tantas formas físicas, seja uma benção, definitivamente. Todos os dias, dependo do meu pai com carro pra me levar até o metrô, para que só então consiga ir trabalhar e ir pra faculdade. Se algo acontece com ele, simplesmente fico presa em casa. Dependo de estranhos no metrô pra me ajudar com degraus, pra me embarcar e desembarcar, e tudo isso todo dia também. 

Alias, engraçado esse texto ser escrito essa semana. Porque no começo dela, eu sozinha no banheiro do trabalho, sem celular, sem ninguém pra me ajudar, levei um tombo feio e fiquei lá, estatelada no chão. Banheiro mal adaptado, toda vez que tentava me levantar, não conseguia. São esses momentos, em que fico estatelada no chão, que percebo o quanto sou limitada dentro da minha condição, Isso quebra a minha própria síndrome da Mulher Maravilha, que eu mesmo me coloco às vezes e vocês às vezes me colocam, porque sou “tão forte”.

Não vou ficar discorrendo aqui sobre cada limitação diária que tenho. Eu e quem convive comigo diariamente (beijo Mamãe, beijo Bi, beijos 6 gatos) sabe das minhas tragédias da vida privada. 

Não, querida Miriam, não é sobre ficar alegre por não andar mais. É sobre viver, não importa o que aconteça. O grande e inerente movimento de ir em frente, mesmo que isso seja imperceptível, mesmo que seja inerente a sua vontade, mas ir em frente não importa o que aconteça, não importa o quanto demore, não importe o quanto doa. E focando no tema da deficiência física, que é o mote desse site, uma novela ficar martelando que ficar paraplégica é castigo, vai ajudar à quem? Vai ajudar uma pessoa que está num hospital, toda ferrada, tentando ter um momento de distração, e a novela tá ali falando que ela não vai ser mais feliz? Se é castigo, como uma mãe de filho deficiente irá se livrar da dor de ver um filho com tantas limitações, e entenderá que não adiantara se lamentar, e sim buscar o melhor para seu filho, dentro do que lhe é possível?

O que deveria fazer é mostrar que há sim vida pós deficiência, e como QUALQUER outra coisa, seja você deficiente, amarelo ou de Passo Grande, é tudo uma questão de adaptar-se.

Peço desculpas ao repetir palavras já escritas na resposta que dei primeiramente, mas também nunca vi alguém ficar feliz por descobrir que não poderá mais andar, sim. Mas vejo tanta gente que anda perfeitamente e justamente “não anda” (não segue em frente), por limitações próprias, impostas pela sociedade e por si.

Andar ou não andar, com cadeira de rodas ou sem, é um mero detalhe nessa vida, minha querida.

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2 opiniões sobre “Uma carta, com afeto, para Miriam.”

  1. Isso aí, filhota!!!

    É realmente pra poder mostrar a tantas outras pessoas que por diversos motivos (ontem, hoje ou amanhã) sofreram alguma limitação, que a vida dela não será ficar deitada na cama com a mamãe levando canjinha quente o resto da vida.

    Seja por acidente, doença ou simples envelhecer, TODOS temos limitações e precisamos aprender a viver com isso. Mesmo que você não goste de ser “modelo” de deficiente a ser enaltecido, é por conviver com deficientes como você todos os dias que percebemos o quanto pode ser difícil e divertida a vida de um deficiente, tornando ~mais fácil~ toda vez que nos encontramos numa situação tipo escolher entre um cirurgia que talvez te deixe deficiente ou a morte, ou mesmo uma gravidez onde o feto venha a apresentar defeitos antes do nascimento.

    A pessoa completa, sem deficiências, não é capaz de perceber muitas dificuldade de um deficiente, e não é por negligência, é só por estar acostumado com outras coisas. Um simples carro estacionado na frente da guia rebaixada ou uma iluminação parca são coisas que só pensamos que faz diferença quando passamos por uma situação onde tivemos que ajudar alguém antes.

    Mais uma vez, parabéns pelo excelente texto!

  2. Já faz um tempo que leio o blog ( quando sobra um tempinho) e esse é o melhor texto que já li sobre o assunto, todas as pessoas deveriam ler, deficientes, familiares de deficientes ou qualquer pessoa que não quer se prender a extremos, dádiva, castigo, isso é bobagem. Todo mundo sente a dificuldade e a maravilha que é viver, independente de suas condições físicas ou psicológicas.
    Parabéns pelo texto, espero que esclareça mente de muitas pessoas.

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