Reforçando, mais uma vez, só pra garantir.

Esse texto diz com muito garbo e elegância muita clareza o porquê eu fico (perdão pela palavra) emputecida toda vez que me usam como exemplo de vida e superação simplesmente por eu levantar da cama todos os dias e levar minha bunda gorda pra cima e pra baixo na numa cadeira de rodas. Eu já falei abertamente disso aqui, e acabo entrando no assunto em tanto outros.

Por isso, agora vou postar esse texto, pra zerar o role. A tradução é livre, feita por mim mesmo. Quem quiser, pode ler o origina, clicando aqui.

“Eu não conheço Scott Hamilton pessoalmente, mas ele está realmente começando a queimar os meus bolinhos.

Você deve ter ouvido falar sobre ele, tenho certeza. Ele foi o único a dizer “A única deficiência na vida é uma má atitude.” Você sabe, essa citação está estampada em todas as imagens de pessoas com deficiência fazendo coisas completamente normais, e compartilhado por todas as redes sociais.

Hamilton é um patinador que teve câncer mais de uma vez e sobreviveu depois de muito tratamento. Bom para ele. Apesar disso qualifica-lo para fazer essa arrebatadora e ousada declaração sobre deficiência, eu não entendo. Eu vou chegar a isto em um momento. Primeiro, eu quero abordar as imagens que seu slogan tantas vezes acompanha.

 Imagem

Essas imagens constituem o que é chamado pornografia da inspiração.

Pornografia da inspiração é uma imagem de uma pessoa com deficiência, muitas vezes uma criança, fazendo algo completamente comum – como jogar, falar, correr, desenhar ou bater numa bola de tênis – acompanhado de uma legenda como “Sua desculpa é inválida” ou “Antes de desistir, tente”. Cada vez mais, eles apresentam a citação de Hamilton.

Há essa única imagem aqui. É sobre uma pequena garotinha correndo em um par de pernas protéticas, juntamente de Oscar Pistorius, também usando próteses semelhantes. Estas pernas, só para registro, custam mais de US $ 20.000 e estão completamente fora de alcance da maioria das pessoas com deficiência. A citação de Hamilton está estampada por toda a foto.

E há um outro menino correndo num modelo semelhante de pernas, com o subtítulo “Suas desculpas são invalidas”. Sim, você pode parar um momento para refletir o uso da palavra “invalida” no contexto de deficiência. Ok.

Depois, há outro com uma menina sem as mãos fazendo um desenho segurando o lápis com a boca e uma legenda escrito “Antes de desistir, tente”.

Eu iria, mas eu poderia eliminar todo o conteúdo do meu estomago.

Deixe-me ser claro sobre a intenção da pornografia da inspiração: ele está lá para que as pessoas sem deficiência possam colocar suas preocupações em perspectiva.  Então eles poderão pensar “Oh, bem, se aquela criança que não possui nenhuma das pernas pode sorri enquanto está tendo um ótimo momento, eu nunca, JAMAIS deverei me sentir mal pela minha vida”. Isto lá para que as pessoas sem deficiência possam olhar para nós e pensar “Bem, isso poderia ser pior… Eu poderia ser essa pessoa.”

Desta forma, estas imagens são modificadas excepcionalmente para objetivar aqueles de nós que eles dizem representar. Não é coincidência que essas genuinamente adoráveis crianças com deficiência nunca são nomeadas: não importa o que seus nomes são, elas somente são objetos de inspiração.

Mas usar essas imagens de como se sentir bem, essa “inspiração”, é baseado no pressuposto que as pessoas nelas contidas tem vidas horríveis e que é preciso um jeito extra de arranque ou coragem para vive-las.

Para muitos de nos, isso não é verdade.

Quando eu tinha 15 anos,  um membro da minha comunidade local abordou meus pais e disse que ela queria me indicar para algum tipo de premio da comunidade. Meus pais disseram “Obrigado, mas há realmente um problema gritante com isso… Ela realmente não tem conseguido nada fora do comum.”

Eles estavam certos. Eu ia para a escola, eu tive boas notas, eu tive uma chave muito baixa de trabalhos depois da escola, e passava grande parte do meu tempo assistindo Buffy – A Caça Vampiros e Dawson Creek. Eu não estava alimentando bebês coalas órfãos infectados com clamídia, antes da escola, ou criando uma cozinha de sopão na rua principal, ou lendo as noticias para idosos no hospital local. Eu estava fazendo exatamente as mesmas coisas que meus amigos não deficientes. Quando meus pais explicaram isso para o bem intencionado nomeador, ele disse “Sim, mas ela é apenas uma inspiração.”

E ai está a dificuldade. Todos os dias da minha vida eu faço as mesmas coisas que todas as não inspiradoras pessoas fazem, e ainda sim sou constantemente parabenizada por estranhos por simplesmente existir. Isso aconteceu duas vezes na semana passada.

Eu estava em um trem com meus fones de ouvido enfiados nos meus ouvidos, ignorando completamente meus colegas passageiros (como é minha vontade no começo de uma manhã) durante a leitura de coisas inúteis no Twitter. Antes de sair na sua parada, uma mulher deu um tapinha no meu braço e disse “Você é uma inspiração para mim”.

Eu deveria dizer “você também”?  Porque nos estávamos fazendo exatamente a mesma coisa: pegando um transporte publico para seus respectivos locais de trabalho. Eu só estava fazendo isso sentada.  Deveria apontar que isso, na maioria das vezes, requer menos esforço e não mais?

Essa é a coisa sobre essas crianças da pornografia de inspiração também – eles não estão fazendo nada que seus colegas também não fazem. Todos nos aprendemos a utilizar os corpos com  que nascemos, ou aprendemos a usa-los num estado ajustado, sendo nossos corpos considerados deficientes ou não. Então, aquela imagem com uma criança pintando um desenho com um lápis em sua boca, invés de utilizar as mãos? Aquela é apenas a melhor maneira para ela, em seu corpo, fazer isso. Para ela, isso é normal.

Eu não posso ajudar, mas pergunto se a fonte desta estranha suposição de que viver nossas vidas leva um particular grupo de pessoas  a ter coragem, é a nova mídia, uma poderosa ferramenta em moldar a maneira como pensamos em deficiência. A maioria dos jornalistas parecem totalmente incapazes de escrever ou falar de uma pessoa com deficiência sem o uso de frases como “a superação da deficiência”, “corajoso”, “sofre”, “desafiando as probabilidades”, “cadeira de rodas”, ou, o meu favorito” inspiradora “.

Se nós mesmos começamos a questionar a maneira como somos rotulados, nós somos levados imediatamente para o extremo oposto da escala, e nos tornamos “ingratos” e “amargos”. Deixamos de ser o que as pessoas esperam.

O que nos leva de volta a Scott Hamilton e seu mantra. A afirmação “A única deficiência na vida é uma má atitude” coloca a responsabilidade da nossa opressão diretamente aos pés, protéticos ou não, das pessoas deficientes. É a acusação da vitima. Isso diz que temos completo controle da forma como a deficiência afeta nossas vidas. Para isso, eu tenho uma coisa a dizer. Seja recheado.

De longe, a coisa mais impactante na minha vida é o ambiente físico. Isso dita o que eu posso e não posso fazer todos os dias. Mas se Hamilton é para ser acreditado, eu deveria apenas ser capaz de sorrir para uma entrada inacessível de um prédio por tempo suficiente e ele magicamente se tornará uma rampa. Eu posso fazer banheiros acessíveis aparecerem onde não existiam antes, simplesmente irradiando uma atitude positiva. Eu posso simplesmente transformar essa carranca de cabeça para baixo em face de um lance de escadas sem elevador à vista. Problema resolvido, certo?

Eu sou naturalmente otimista, mas nenhum desses exemplos jamais funcionou para mim.

Pornografia da inspiração envergonha pessoas com deficiência. Isso diz que se nós falhamos em ser felizes, sorrir e viver nossas vidas e a vida que fazem as pessoas ao nosso redor se sentirem bem, é porque não estamos tentando o bastante. Nossa atitude não é positiva o bastante. É nossa culpa. Sem mencionar o que isso significa para as pessoas as quais a deficiência não é visível, como as pessoas com doenças crônicas ou mentais, que muitas vezes lutam contra a suposição de que é uma questão de atitude. E nós não estamos autorizados a ficar com raiva e chateados, porque então nós seriamos “más” pessoas com deficiência. Nós não estaríamos fazendo o nosso real melhor para “superar” nossas deficiências.

Eu acho que não importa o que a pornografia da inspiração nos diz sobre as pessoas com deficiência. Na verdade não é sobre nós. Deficiência é complexa. Você não pode resumir isso numa imagem bonita com uma frase comovente.

Então da próxima vez que você for tentado a compartilhar essa foto de uma criança adorável com deficiência para fazer seus amigos do Facebook se sentirem bem, basta parar um segundo para considerar porque você realmente está clicando nesse botão.

Stella Young é editora do ABC Ramp Up.”

Alias, clicando no nome da Stella, logo aqui em cima, você tem acesso ao perfil dela no site da ABC e todos os textos dela, que é um melhor do que outro. Vale o clique, tá?

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3 opiniões sobre “Reforçando, mais uma vez, só pra garantir.”

  1. Texto excelente! Fico pasmo com a quantidade de mensagens ofensivas que circulam sob uma estética politicamente correta. Num outro sentido e mais grave, ao meu ver, são aqueles indivíduos que para justificarem as deficiências e as condições de fragilidade das outras pessoas recorrem a justificativas kármicas, “é porque cometeu atos maus na vida passada”. Duas vezes surgiu uma frase como essa em diálogos com pessoas diferentes e eu imediatamente mudei de assunto porque é preciso ter um estômago de aço para aguentar ouvir uma grosseria moral (e espiritual) como essa.

  2. Você já ouviu falar sobre a australiana com Osteogenesis Imperfecta Stella Young e da sua palestra sobre “Pornô Inspiracional” No TED Talk? Se ainda não, aqui segue o link da palestra legendada em Portugês.

    1. Olá Kiran!

      Obrigada por comentar aqui no blog!

      Conheço sim a Stella Young, inclusive já recomendei este vídeo para várias pessoas. Vale a pena ver os textos dela também, que são ótimos.

      Um beijo, Gabi!

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