Só acessibilidade, juro por deus.

Como vocês sabem, sou uma pessoa muito bem relacionada, e cheia de fãs.

Tá, parei com a palhaçada. Vocês, meus fiéis seguidores dos comentários, página do Facebook, meu Twitter, todos comentam, dão risada e as vezes, dar a sua opinião ou impressão sobre algo que viu / aconteceu com ele. Nada mais justo do que compartilhar o relato do Alberto Duck, sobre o debate “igreja e deficiência, a salvação” –  já tratado aqui em vários outros textos.

Ao acessar o “Orkut”, vi uma “promoção” em que o indivíduo usa uma imagem do símbolo internacional para cadeirantes, mas com uma notável alteração, que mostra uma pessoa levantando da cadeira de rodas e embaixo escrito: “Jesus cura” (ao lado). Sinceramente, fiquei chocado.

Trabalho desde meu primeiro ano de faculdade (há quase 10 anos) com pessoas com diversos tipos de deficiências (visual, auditiva, intelectual, física etc.) e atualmente tenho amigos com alguma deficiência (digo mais, toda vez que estou com eles aprendo algo novo), e em todo esse tempo nunca vi e nem conheci uma pessoa com deficiência que foi curada sem fazer uma cirurgia, fisioterapia ou utilizando qualquer outro tipo avanço médico/tecnológico.

Não que eu não acredite em milagres, pelo contrário, acredito, mas muitas igrejas colocam a deficiência como se fosse um problema muito grave e, portanto, o “coitado” precisa de oração para que Deus tire esse mal da vida dele. Afinal se ele esta naquela situação é porque ele está em pecado, ou é um castigo para a família, por culpa de algo que alguém fez no passado.

Antes de a igreja orar/rezar para que ele seja curado, não seria mais coerente perguntar a ele se quer que orem/rezem por ele? Não seria importante perguntar quais as reais necessidades dele?

Acredito que quem necessita de cura verdadeira são as pessoas preconceituosas, deixando o preconceito de lado e percebendo que na verdade essas pessoas são muito eficientes, mas com um diferencial, apenas não enxergam, não ouvem, não andam ou apenas necessitam de uma atenção especial.

Relato de um caso real:

Na igreja que frequentava, havia também um cadeirante. Na época questionei a liderança para que construíssem uma pequena rampa de 10 cm. de altura na entrada, para assim facilitar o acesso dele. A resposta era que do jeito que estava, elas se sentiam úteis em ajudá-lo e isso deixava-o feliz.

Pergunto: Onde que entra aquela história de que a igreja está aberta a todas as pessoas? Como as pessoas com deficiência vão ter acesso às igrejas, sendo que a maioria não oferece o melhor para TODOS, não tem intérpretes de LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais) para os Surdos, nem audiodescritor para os Deficientes Visuais? E como receber bem um cadeirante que necessita ir com frequência ao sanitário, que tem que ser totalmente acessível (seguindo as Normas ABNT 9050) ? Será que na hora de usar o banheiro o cadeirante vai querer a ajuda de alguém? Ou será que a melhor ajuda que podemos oferecer é tornando os locais acessíveis (inclusive as pessoas que não possuem deficiências, fazerem o favor de não utilizarem os locais destinados a deficientes)?

Nem sempre as pessoas com deficiência são aquelas que nasceram desse ou daquele jeito. Muitos adquirem a deficiência com o passar dos anos, seja por acidente ou doença, e nem sempre ela é definitiva, quem já quebrou um membro sabe como é difícil estar ele imobilizado.

Para terminar, deixo algumas observações finais:

Sim, sou cristão, acredito em Deus, frequento uma igreja e respeito a religião de cada um. Talvez você ache que esse texto seja de um “crente” para outros “crentes”. Sim, é isso mesmo, afinal todos nós somos crentes e acreditamos em alguma coisa, seja em Deus, deuses ou qualquer outro tipo de crença. Respeito todas as religiões e esse texto é válido para um Umbandista, Budista, Católico, Judeu, Testemunha de Jeová ou qualquer outra religião, pois as pessoas com deficiências estão presentes em todas as religiões. Todo mundo, independente de raça, credo, deficiente ou não, partido político, instrução etc merece respeito.

Lembre-se que por diversas circunstâncias qualquer um de nós está sujeito a ficar temporariamente ou definitivamente com alguma deficiência, para isso, basta estar vivo. Ou podemos ficar com uma idade avançada e então teremos mais dificuldade para certas atividades, o que faremos então? Você não vai querer ser bem tratado? Pense nisso!

Vou abrir meu coração, nesse momento Perdigão, e contar para vocês que não é fácil. Não é fácil as pessoas acharem que só rezar vai te “salvar”, que se você ir na igreja A, B ou C, vai dar certo, ou que se balançar em sentido anti-horário com uma folha de bananeira amarrada na cabeça entoado cantigas das ilhas malu-lu-ah você vai ser curado,isso pra mim é sim uma forma de agressão. 

É agressivo, ao menos na minha concepção, estar parada no portão esperando meu pai, dar bom dia pra uma senhora que estava passando na rua, e daqui cinco minutos ela voltar e me entregar um planfeto com orações, pra eu voltar a andar. É ofensivo eu ter que aguentar uma velhinha na fila do caixa preferencial, por vinte minutos, me falando que eu tenho que orar todos os dias antes de dormir, que minha mãe tem que rezar todas as noites antes de dormir, porque ai, igualzinho aconteceu com ela, nosso senhor filho de deus vai aparecer no meu quarto, no meio da noite, envolto em uma luz branca, e me abençoar. 

Sério?

Alguém me pergunta antes de me abordar no metrô pra me presentear com um livro da sua religião, ou ao menos uma vez por semana me parar pra falar pra eu ir na sua igreja, porque ela é muito bonita, com canticos sobre fontes de chocolate que vão até o céu e piscinas de Coca Cola?

Não.

A gente não precisa de reza gente. A gente precisa de respeito. E claro, acessibilidade.

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