A ditadura do esporte pra quem é deficiente.

Para usuários de drogas, população carente, deficientes, não importa – o esporte é uma importante forma de recuperação. Seus benefícios já foram atestados por estudos científicos e sociológicos. Reduz dores, combate depressão, gera bem-estar… Não sou eu que vou contradizer isso, até porque vivenciei essa experiência.

Treinei na AACD por quase quatro anos, sendo que por um bom tempo treinava as terças natação e tênis de mesa, e na sexta um treino mais puxado só de tênis de mesa. Eu gostava, era divertido e ajudava muito na minha recuperação. As duas atividades ajudavam na minha parte motora, fortalecendo tronco e braços, e a reaprender a usar meu ponto de equilíbrio. Tudo ia muito bem, até o ponto que o tênis de mesa foi se tornando uma coisa mais séria, e começaram a me pressionar para entrar na equipe de natação e começar a competir. Porque eu simplesmente não poderia nadar tranquilamente, sem aquele papo todo de “Nossa Gabi, você deveria começar a competir aqui pela casa, você nada tão bem!”. A própria AACD virou uma maquina de criar atletas, e eu não queria fazer parte disso, então por isso acabei me desligando da natação e ficando só no tênis de mesa, que pra mim era algo mais divertido e apesar de já ser considerada parte da equipe, ninguém me pressionava para ir para competições, porque o próprio esporte exigia um tempo de treino maior.

Até que o tênis de mesa começou a não ser tão divertido assim. As cobranças acabaram chegando, para começar a treinar todas as segundas, para começar a competir, para treinar em casa, para isso e para aquilo. Não queria isso. Viver como esportista era um sacerdócio que não estava disposta a aceitar. Fora que financeiramente não compensa nada. Mesmo. Patrocínio no Brasil é uma coisa quase impossível, se você não for um atleta de ponta, com resultados impressionantes e visibilidade na mídia, esqueça. Se você representar uma associação (como a própria AACD) eles ajudam financeiramente, mas no grosso, coisas importantes como passagem área saem do bolso do próprio atleta. A Bolsa Atleta que o governo fornece para quem vive do esporte, varia de acordo com seus resultados, e bem, até com o valor máximo fornecido, não é um apoio que vá garantir conforto pra quem dedica todo seu tempo competindo pelo país.

A Bolsa Atleta vai garantir aos atletas beneficiados patrocínio durante seis meses, nos valores mensais de R$ 1.500,00 para atletas que tenham participado dos dois últimos jogos Panamericanos ou que tenham obtido índice para participar do próximo; R$ 1.000,00 para atletas de modalidades individuais que integrem a seleção nacional da modalidade esportiva; R$ 600,00 para atletas de modalidades individuais participantes de competições nacionais e/ou integrantes do ranking nacional da modalidade; e R$ 350,00 para atletas de modalidades individuais participantes de competições municipais, regionais e estaduais.” (via site Folha Online).

O que me incomoda profundamente, é essa ideia enraizada tonar o deficiente um atleta, um campeão. O lado positivo disso é o destaque que o Brasil consegue nos jogos Parapanamericanos e Paraolímpicos. Mas é errado você apresentar o esporte como a única forma de ter sucesso na vida. Ao menos na minha percepção, essa atitude é resultante da falta de acesso para deficientes à estudo (porque ainda nos dias de hoje há sim, uma rejeição por parte de muitas escolas em aceitar alunos que apresentem alguma dificuldade de locomoção ou outros tipos de deficiência), tratando-se de escolas de nível fundamental ou médio, e até o despreparo estrutural de muitas instituições de ensino superior. Tudo isso impede uma boa qualificação no mercado de trabalho. E eu estou falando de vagas de emprego que deem oportunidade do deficiente crescer na empresa, e não simplesmente contratá-lo para cumprir a cota de funcionários especiais estipulada por lei. Telemarketing não é a única atividade laboral que estamos preparados para exercer, querida sociedade.

Se você não é o Fernando Fernandes, que tem condições financeiras para bancar uma vida de atleta e é lindo, e realmente abraçou o esporte como um estilo de vida: parabéns por achar sua vocação. Mas pense se no futuro, vai ter válido a pena viver essa vida de viagens e competições, mas aos 35 ter os tendões estourados por esforço repetitivo e depois, quando mais velho, ter como uma das poucas opções ser treinador ou algo do tipo.

Eu achei melhor ir estudar, e eventualmente dar umas voltas com minha handbike.

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