A insustentável incoerência de se ser.

Hoje vindo trabalhar, vim pensando em uma coisa no metro. Todos temos preconceitos. Todos. É intrínseco de cada um, porque são valores (por mais errados que achemos que sejam) passados pelos nossos familiares ou pelo meio que vivemos. Eu mesma tenho a minha cota, por exemplo, não é porque sou deficiente física que não tenho preconceito por alguma outra deficiência. Pena, dó, repulsa, estranhamento… Todos sentimos isso por determinado “grupo social” ou estigma. E negar isto é hipocrisia.

Tratando-se especificamente de uma deficiência, as coisas são bem complicadas. Até alguns anos, um deficiente era alguém pra ficar trancado dentro de casa, porque coitadinho, não tem como enfrentar as dificuldades do mundo lá fora, que é tão mal. Ter 94% de diferentes com emprego formal, é uma realidade atual.

E quando o preconceito é da própria pessoa que tem a deficiência e não aceita ter nascido assim, ou não aceita ter ficado assim, por um acidente ou sabe-se lá o que aconteceu? Ou, pior, na minha opinião, o preconceito vem dos pais que não aceitam a realidade do filho?

Não vou citar nomes porque não é uma história minha, e quem conhece vai saber exatamente de quem e do que estou falando. Uma amiga tem um irmão que progressivamente vem perdendo a visão. Ele treinou pra usar o cão guia, sabe braile, mas segundo os pais dele, ele não é cego. Usa celular com programa de voz porque não consegue enxergar a tela, mas não é cego. Uma vez, usando a bengala pela rua, ele caiu e culpou a bengala pela queda, e desde então não a usa mais. Comparo isto a culpar minha cadeira de rodas por eu ter ficado presa numa fenda da calçada em plena Praça da Sé, sendo que no fundo eu que não olhava por onde andava. No caso dele, a bengala serviu literalmente como apoio para sustentar a realidade negada de que ele não consegue mais enxergar por onde está andando.

Ter o apoio de seus familiares é fundamental na reabilitação de uma deficiência. Li essa semana na Folha de São Paulo (e infelizmente não guardei o link) que cientistas provaram que amor não faz milagre – mas ajuda muito na recuperação e tratamento de alguém que foi acometido por uma deficiência ou já nasceu assim. Ter alguém pra entender suas limitações e falar “calma, vai ficar tudo bem” ou “se você não consegue fazer isso assim, porque não faz assim?” ou simplesmente pra te apoiar, faz toda a diferença. Às vezes só queremos colo mesmo, pra chorar nossas angustias “especiais” ou pra rir de algo que aconteceu exclusivamente no nosso dia, justamente por sermos tão únicos.

Não reconhecer a deficiência visual, como neste caso, não vai fazer a pessoa voltar a ver perfeitamente, e pior, nega dar a ela a oportunidade de levar a vida com a melhor qualidade de vida para a deficiência dela especificamente, seja com cão guia, bengala ou livros em braile. Negar a minha realidade e ficar eternamente na possibilidade de voltar a andar me nega a possibilidade de viver todo dia plenamente, com minha cadeira de rodas vermelha com gliter. Porque eu não me aceitaria, e não me aceitando eu viveria na possibilidade do futuro de talvez virar bailarina, e ignoraria que posso dar piruetas muito mais divertidas com a minha quase-Ferrari.

Ao contrario do que muitos acham é muito mais fácil aceitar que sofri uma lesão raqui-medular e que como foi uma ruptura completa de medula, não vou voltar a andar. Células tronco não vão trazer meus movimentos de volta, igual ao que eu tinha aos 12 anos, antes do acidente. Por mais fisioterapia que eu fizesse/fizer, a perda de massa muscular é eminente. E pra voltar a andar, mas ficar andando torta e lenta, prefiro usar minha cadeira de rodas que me oferece muito mais liberdade e conforto. Células troncos sim, mas pra me trazer alguma qualidade de vida. Voltar a andar nunca foi uma prioridade por aqui.

Se aceitar é fundamental pra ser feliz, não importa qual seja o seu problema. Aceite-se, adapte-se e respeite o outro em toda a sua integridade. Isso sim é um ato de amor, a si e ao outro, e que liberta.

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5 opiniões sobre “A insustentável incoerência de se ser.”

  1. É engraçado como as vezes as pessoas simplesmente não sabem aceitar o rumo que susas vidas levam e se habituam a viver com isso e correr atrás dos prejuízos… Apesar de ser uma lição dura, é bem recompensante quando você percebe que aprendeu a conviver com aquilo que tanto temia ou tinha receio.

  2. Uma dura realidade que pouco pode ser vista, porque normalmente os deficientes que vemos andando por aí vivendo sua vida são aqueles que já se aceitaram.

    Hoje mesmo, estava numa fila e uma duas pessoas à frente tinha um cadeirante. Na hora dele ser atendido (o balcão era alto demais) ele se levantou da cadeira. O Lu tomou um susto, mas foi aí que vimos que a deficiência dele era a falta de uma das pernas. Ele poderia usar muletas e ficar pulando como vemos muitos por aí, mas ele optou pela cadeira, mesmo não “precisando”, ela traz muito mais conforto pra mobilidade dele.

    Muitas vezes temos de ser “super protetores” conosco, um exemplo que todos viveram/vivem/viverão é o clássico óculos para leitura, que serve justamente pra proteger um pouco a vista.

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