50 tons de roxo.

Sinto decepcionar quem apostou suas fichas em que a previsão correta pra este ano é o fim do mundo no dia 21/12. Vocês estão completamente errados. A previsão certera, que já se concretizou, foi a minha terceira internação.

Uma pessoa que teve uma Lesão Medular e desenvolveu uma paraplegia ou tetraplegia sofre com duas coisas: escaras, assunto já muito comentado no meu blog, devido as minhas ultimas duas internações, e infecção urinária. Ao sofrer o trauma, nossa medula é afetada e por causa disto perdemos parte ou totalmente o controle do nosso sistema urinário, dependendo portanto de sondas uretral de alivio, para realizar cateterismo intermitente, e pode ser a descartável ou a permanente, que fica aquela bolsa de xixi. Enfim, por ser um procedimento invasivo  (imaginem de quatro a cinco vezes por dia um tubo de plástico entrando na sua uretra ou 24h por dia um tubo enfiado na sua uretra) acaba que nós, pobres seres “rodantes” sofremos com uma infecção urinária atrás da outra. E não há antibiótico de controle que dê conta de tanto bichinho.

Terça feira, dia 23. Fui até o Tatuapé fazer o exame admissional, iria voltar a trabalhar na quinta feira. Passei a tarde no trabalho com as meninas e depois fui pra aula. Só tem um ponto: estava um calor infernal. E eu de blusa de lã e eu completamente mole, mas achando que era sono. Assisti as primeiras aulas e no intervalo minha prima constatou que não era sono coisa nenhuma e eu, pra variar, estava queimando em febre. Como ainda há, mesmo que minima, uma escara no meu popô, resolvemos (fui arrastada) imediatamente para o hospital.

O doutor me mandou para a observação, pois precisava ver se era da escara ou se era uma infecção urinária. Primeiro ele examinou meu popô e constatou que não era da escara. Ai ele pediu um exame de urina tipo I, pra ver a contagem e constatar a infecção. Mas, como bom médico que é, não esperou nem o resultado do exame para me internar. Disse que iria ficar só dois dias, pra tomar antibiótico na veia e depois tudo correndo bem, iria pra casa.

BALELA.

Antibiótico de doze em doze horas, controle de quantidade de urina a cada sondagem… Eis que minha médica pede ultrassom das vias urinárias pra ver se a infecção havia chegado em algum outro lugar. Gel gelado que faz meleca, aperta aqui, aperta lá, e me falam que meus rins estão dilatados e um pouco inflamados. Pronto, já me imaginei na fila do transplante, dez anos de hemodialise até conseguir um doador compatível, poder praticar qualquer atividade física… Até segunda opinião a médica pediu. Socorro! Então pedem pra eu esvaziar a bexiga e então repetem o exame. Olha que maravilha, desinchou. E dá susto em mim é tranquilo né? Passada a saga dos rins, eis que o buraco do popô resolve inchar e ficar parecendo um furúnculo. Não bastasse eu já ter operado a bunda na primeira internação, agora me pedem ultrassom da bunda. Nunca pensei que ia passar por isso. Vá-lá, fiz o exame, e deu que tinha um pouco de sei lá o que ainda dentro do buraco, então o dr. Mauricio, meu médico plástico e que deve estar cansado de ver a minha bunda já, veio e fez uma punção na escara pra extrair o líquido que havia dentro. Não saiu nada. Nem uma melequinha. Alta por parte da escara, u-hu!

Fora que no domingo chegamos naquela situação que não há mais veias no meu braço pra pulsionar (daí que veio o título do texto, porque a medida que as veias vão estourando, vou ficando com manchas roxas pelo braço). Como não compensava pegar um acesso central pra ficar internada só mais três ou quatro dias, e o Rocefin (o antibiótico) pode ser ministrado por injeção intramuscular, e bom, injeção intramuscular é injeção no popô, e como eu não sinto meu popô então a injeção não dói, tentem adivinhar qual opção eu escolhi.

O grande barato de alcançar a meta de três internações em cinco meses é que você percebe o nível de intimidade que há com os enfermeiros. Da turma da manhã, a Olga, corinthiana roxa, não me perdoou por eu ter zoado ela por conta do jogo no Pacaembu que o São Paulo ganhou e eu fiz um inferno pra receber alta e conseguir ir assistir, e disse que só vou receber alta quando virar corinthiana, e ainda por cima tem minha médica, dra. Maria Cecilia que também é corinthiana, está mancumunada com Olga pra me prender aqui para sempre. De tarde, temos o Thiago. Quando me internei das outras vezes sempre fiquei no 3° andar, mas dessa vez fiquei no térreo, e só depois pedi transferência para o 4° andar, que passou a abrigar a equipe médica e pacientes do antigo 3° andar, que agora é andar somente cirúrgico. Thiago, pessoa querida que eu já atormentava na segunda internação, abriu a porta do quarto 410 e ao me ver deu meia volta e começou a sair do quarto, dizendo um sonoro “ai não!”, e eu precisei começar a gritar “THIAGO VOLTA AQUI AGORA, NÃO VAI EMBORA NÃO!”, mas só porque nós nos gostamos muito.

Aperto o botão de chamar algum enfermeiro:

– “Thiago, tô com dor.”
– “E eu com isso?”

É, bem assim mesmo. E se você pensa que na equipe da noite a coisa é mais normal, engano seu. Comenta-se sobre o tamanho da minha bunda como quem fala do preço do pão francês e é lindo chamar a paciente aqui de bunduda. Intimidade rox.

Queria agradecer a todos que fizeram piadinhas sobre eu estar gravida (check-in em hospital e maternidade dá nisso), atenciosamente perguntou se era o popô de novo, veio me visitar, ligou ou mandou um tweet com boas vibrações. Segundo consta, amanhã terei alta, e voltarei pra faculdade e ao trabalho (porque NÃO, eu NÃO fiquei doente pra não ir trabalhar, parem com isso).  Vou pensar no caso de vocês e ver se fico sem bater a meta de quatro internações em seis meses, tá?

Ps: sim, há um médico bonitinho, da urologia, mas ele só veio me ver uma vez, nem peguei o telefone dele, tá? Muito triste.

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5 opiniões sobre “50 tons de roxo.”

  1. Well…o que dizer dessa sua prima FDP que não de te internar??? Não sei quem FUI, mas enfim…assim que eu encontra-la, ARREBENTO a carinha dela!!!!Onde já se viu??? Essa criatura não TE AMA não viu!!!! HAHAHAHA
    Volta logo!!!! Estamos com saudades, eu e o Mingau é claro!!! ;)

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