Eu e minha cadeira.

Dizem que quando você nasce com uma deficiência, é  mais fácil porque não se sabe o que está perdendo. Você não vai ter as lembranças de pisar na areia da praia, ou de como era bom estralar os dedos do pé. Mas quando sofremos um acidente e do nada perdemos isso… É difícil. Posso falar aqui sobre isso com conhecimento de causa. Por mais que se aceite, sempre vai ter momentos em que vamos sentir no mínimo uma saudadezinha, nem que seja daquelas coisas mais banais.
Consigo entender isso. Mas então vemos nas novelas, nos corredores dos centros de reabilitação, ou em textos publicados em blogs, relatos de deficientes que tem problemas em aceitar sua nova condição e descarregar isso repudiando o objeto que deveria ajudar nessa hora tão difícil: a cadeira de rodas.
Não tive problemas para aceitar meu acidente, e acho que estava tão pilhada para poder sair da cama hospitalar e poder chegar ao meu antigo quarto, que quase pulei quando me trouxeram minha primeira cadeira. Ela foi doação de uns amigos da família, e era branca e de ferro, tanto que eu quase não conseguia me mexer com ela (uma das primeiras coisas que fiz com ela foi atropelar minha irmã, é  claro). Mas foi ela que permitiu eu voltar depois de somente um mês do acidente ao escoteiro e às aulas.
Depois ganhei outras cadeiras, sempre mais leves e coloridas, mas adaptadas e me possibilitando o meu bem mais precioso: liberdade. Porque só quem fica acamado e impossibilitado de se mexer direito, sabe o quão importante é poder fazer as coisas sozinho, sem depender de ninguém. E a minha cadeira de rodas me possibilita fazer coisas maravilhosas, e quase nada é empecilho para ela e para mim. Estudamos, saímos com amigos, ou sozinhas… Até trilha no meio da mata já fizemos!
Quando olho para minha cadeira de rodas, não penso que estou presa a ela, que não posso mais andar ou qualquer coisa do tipo. Quando olho para minha cadeira de rodas, penso que ela me possibilita movimento, liberdade, em seu sentido mais puro. E outra coisa – ela me lembra todos os dias que estou viva, apesar de tudo. E eu só tenho que agradecer por isso.

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4 opiniões sobre “Eu e minha cadeira.”

  1. É isso ai Gabi, vc é uma pessoa iluminada e abençoada por Deus desde que nasceu pois por pouco vc não estava aqui com a gente, porem Deus te deu uma chance de nos alegrar. Tempos depois novamente quiseram te levar, porem ele falou NÃO e vc continua aqui com a gente para alegrar nossos corações. Essa tua vontade de viver e vencer, essa alegria no coração que vc tem só pode ser coisa do homem lá de cima. Continue sempre assim, com essa força interior que emana pelos teus poros, pois tua alma é abençoada.
    Que Deus te dê muita saúde, alegria para nos contagiar e força para poder superar todos os obstáculos que aparecerem no teu caminho.
    Um beijão deste tio que te ama.

    Rui

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