Outras rodas #01

Esse é um texto retirado do blog Assim como você, que conta sobre o relacionamento de um andante com uma cadeirante. Espero que gostem.

“06/03/2009

Um amor cadeirante

Boa parte das mensagens que recebo tem como tema um assunto que ainda é preciso escrever muito para que fique claro, para que se rompam os estigmas, para que entendam de vez que ser deficiente não quer dizer ser um “morto-vivo”.

Qualé o tal tema? Eu digo porque eu sou “minino bão”, só por isso. Me perguntam demais “como é namorar um cadeirante”.

De fato, ser da Matrix pode envolver algumas rotinas incomuns para os “normais”, para os andantes. xiste o aspecto de sempre planejar os momentos a dois em ambientes que não sejam o topo do Everest , entender que, em alguns casos, rotinas básicas como fazer aquele “xixo” pode ser diferente (com sonda).

E tem também a questão da sensibilidade “das partes”, a forma de agir na hora do sexo, se é preciso ou não dar aquela ajudinha para dar uma voltinha na praça… Porém, ao mesmo tempo, o gostar, o amar, o se apaixonar …. são iguais!!!!!

Meninas cadeirantes costumam ter labuta maior do que os homens para reorganizarem ou mesmo dar rumo à vida amorosa. Por quê? Porque homem, muitas vezes, avalia a pessoa pela bunda, pelo rebolado, pela facilidade de “traçar” a vítima , pelo comodismo de enxergar a “mulher perfeita” sobretudo pela forma física.

Defendo o direito das pessoas de se atraírem ou não pelas outras de acordo com as características que elas expõem, o que pra mim nada tem a ver com preconceito. Contudo, quando você vir um casal com uma andante e uma cadeirante ou vice-versa, não se surpreenda ou comente baixinho “ahhhh, que gracinha”.

A força que une a mantém as pessoas vai muito além do que os olhos podem ver. E pode apostar alto que casais que misturam o comum com o “incomum” costumam viver histórias tórridas de sentimento, de atração e de querer-bem.

Mas chega de papo, encerro a semana com um relato brilhante e irretocável do meu grande colega e talentoso fotógrafo Rapha Bathe, que namora uma cadeirante e nos conta um pouco sobre o “como que é”?!?! E o cara tem sorte, viu? Conquistou uma daquelas lindas, daquelas que o queixo cai quando se vê em cena (tem um trocadilho aqui que não vou explicar ).

Tenho certeza ue o texto do Rapha é mais um daqueles que vão entrar para a história da revolução de idéias propagadas por um lugar chamado “Assim como Você” (“inzibiiiiido”!!! )

Uma coisa que eu sempre soube é que o amor é bonito em todas as formas. E no caso da Matrix é a mesma coisa! Não é?!

Juro que não entendo porque isso pode ser diferente, para mim, é simplesmente amor. Quando conheci minha namorada, ela já era cadeirante, o que não fez diferença para mim. Me apaixonei pelos seus olhos, seu sorriso e a maneira de falar sobre a vida.

Não cheguei nem a pensar de imediato como é o relacionamento com uma pessoa com deficiência, essa curiosidade foi vindo com o tempo, e aí eu pesquisava na internet, perguntava para ela ou simplesmente aprendia “na marra”.

Na realidade, eu não posso relatar como um guia a forma de namorar uma pessoa com deficiência, pois cada caso é um caso. Cada pessoa tem o seu nível de independência (tenha ela deficiência ou não!).

A minha namorada, por exemplo, é mais independente do que muita gente que anda com as próprias pernas, mas é claro que a gente passa por situações que apenas um casal da Matrix  pode passar, e muitas delas são bem engraçadas.

Uma vez estávamos andando no shopping, de mãos dadas, quando, de repente, uma mulher nos para e diz: Ai gente, me desculpa, mas vocês dois formam um casal tão lindo! Parabéns!

Hahaaha, tudo bem que a gente realmente é lindo, mas ninguém diz essas coisas hoje em dia, muito menos aqui em São Paulo, para alguém que nunca viu na vida!

Outra situação diferente é quando vamos ver um filminho no cinema. Enquanto todo mundo chega na hora do trailler, a gente precisa chegar bem cedo e entrar antes de todo mundo para ter tempo de guardar a cadeira, pegar a minha namorada no colo e subir para um lugar decente, já que o lugar reservado para deficiente é mais conhecido como “gargarejo”. Às vezes, a gente se atrasa, e aí só mesmo uma massagem no pescoço pra resolver!

Jairo, sei que tá todo mundo louco para ler sobre sexo… mas muita calma nessa hora! Eu já chego lá!

A gente adora sair, e … Meu Deus… como as pessoas adoram escadas!! Por isso se você não quiser voltar pra casa mais cedo ou não gostar de ver sua namorada sendo carregada por um cara fortão, é importantíssimo que você consiga carregá-la no colo!

Apesar do transtorno e da falta de comodidade para ela, eu não me incomodo nem um pouco e adoro tê-la em meus braços. O único problema é que, se um dia a gente se casar, ela nem vai achar tanta graça em entrar no quarto em meus braços na lua de mel.

Viajar também requer alguns cuidados diferenciados. Sempre que vamos a algum lugar novo, verificamos antes se onde vamos nos hospedar tem acesso. Entramos no site, ligamos, nos informamos tintim por tintim. Será que tem escada? O quarto é acessível? E o banheiro?? Ai ai ai… o banheiro é fundamental!!!

Nesse Crnaval nós ganhamos uma promoção e fomos para uma pousada em Maresias. Alguém tem alguma dúvida de que o banheiro não era acessível? Mas fazer o que!? Nós ganhamos!! Então nada melhor do que aproveitar a chance!

Toca ficar nós dois fazendo malabarismos para entrar no banheiro, transferir para o vaso, para o Box, para a cadeira. Ai “Gzuis”, mais um pouquinho a gente já saia suado do banho!

Dá vontade de andar com uma marreta para alargar todas as malditas portinhas estreitas de banheiros.  Mas curtimos cada momento, fomos para o mar, pra balada, encontramos amigos, passeamos, cantamos… ah! Viajar sempre é bom!

Depois de passear, ver filminho e jantar, chegou a hora de fazer amor. Então vamos falar do sexo! (Aposto que tem gente que vai ler só essa parte!) Gente, esse tabu, na verdade, não existe.  O sexo e o amor são coisas que acontecem entre o casal e que não tem segredo.

Eu acho que independentemente de ter uma namorada com deficiência física ou não, você precisa entender o que acontece com o corpo dela, quais os pontos erógenos, o que agrada a ela, o que agrada a você e o que agrada aos dois.

É importante saber que o prazer é um conjunto de sensações que podem ser transmitidas e criadas por seis sentidos! (Tem um a mais que os usados no dia a dia). O toque, o cheiro, o gosto, a audição, a visão e principalmente a imaginação.  Tudo deve ser explorado, e se a sua namorada é paraplégica, isso não quer dizer que ela não goste que você beije e acaricie a sua perna, isso depende de cada um.

As preliminares também são essenciais em qualquer relação! E aí, meu filho, tem que deixar a imaginação e o tesão fluírem soltos! O mais importante de tudo é ter uma relação saudável! Ser diferente é normal. Ninguém se apaixona por um espelho de si mesmo, seja físico ou psicológico.

A gente se apaixona por pessoas que completam a gente, e quando isso acontece, a deficiência é apenas um detalhe. O amor simplesmente acontece, cabe a você aceitar ou não! Eu aceitei!!!”

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2 opiniões sobre “Outras rodas #01”

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